Ana Gomes - um tiro no pé
(...) Presidente - não se demita. Demita-o! É o teor de um sms que acabo de enviar ao Presidente Xanana! Interferência nos assuntos internos, acusar-me-ão. Eu não sou governo, sou deputada, cidadã portuguesa e amiga de Timor Leste. Trabalhei muito por ver o povo de Timor Leste livre e independente e não vou assistir impávida a que um punhado de casmurros de matriz totalitária precipitem de novo o país no caos. "Interferi" muito, antes, por Timor Leste e não me arrependo. É preciso que em Portugal se entenda que Mari Alkatiri até hoje não juntou os milhares de manifestantes da FRETILIN, que diz estar a reter para não provocar mais perturbações, pura e simplesmente porque não os tem. Os militantes de base da FRETILIN são quem está mais desapontado com os falhanços deste governo. Alguns membros do governo também o sabem - e por isso se estão a demitir. Vejam o que disse a Micató, Domingas Alves, uma militante da FRETILIN que se destacou na resistência no interior durante a opressão indonésia, quando se demitiu ontem do cargo de conselheira do PM para a igualdade das mulheres. Os militantes da FRETILIN que estão próximos do povo sabem bem que o povo - por justas e injustas razões - odeia Mari Alkatiri e outros membros do seu governo. Sabem bem que muitos e graves erros foram cometidos, que inviabilizam que Mari Alkatiri continue à frente da governação. Eles não podem deixar que a obstinação de um punhado de gente arrogante e desligada da realidade arraste mais o país para o caos. [Publicado por AG] 25.6.06 no Blog Causa Nossa, aqui.
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Ana Gomes confunde os termos do problema e dá aqui um triste exemplo do seu repentismo e precipitação num ataque destemperado a Alkatiri. Sou critico de Alkatiri, na estrita medida em que o argumento ideológico que insiste em usar para não se demitir e se afastar (o da legitimidade revolucionária) é tanto seu como dos outros que morreram na Resistência ou vingaram na elite do poder timorense. Em segundo lugar, porque como ensinam todas as revoluções estaria disponível (segundo todas as indicações) para ajustar contas com os seus companheiros de caminhada: é normal as revoluções acabarem com os seus promotores sacrificados na fogueira revolucionária. Vários o têm explicado ao longo dos anos: de Alexis de Tocqueville a Hannah Arendt. Isso (não percebeu) seria trair a confiança e quebrar os laços de solidariedade que a ideia de Timor tem criado ao longo de décadas no imaginário português.
Não pode(mos) Dra Ana Gomes é tomar a nuvem por Juno: isentar os outros interventores na actual crise em ordem a uma qualquer (sua) segmentação linha vermelha-linha negra. Não há aqui linhas multicolores, uma teologicamente pura e outra impura. Apenas o jogo comezinho dos interesses (os que já estão instalados e os que espreitam) e da gamela das benesses. Temos todos que crescer um bocadinho e o romantismo fora de época cega.
O "companheiro" Che - perdão Xanana Gusmão - é parte do problema mas é também parte da solução. E como falou Max Weber tem a qualidade de jogar com enorme mestria numa expressão fundamental do poder que é o poder carismático. Arrebata poder quando lhe falta o outro, o formal e regimental.
Por isso a questão não é demitir Mari Alakatiri; é demitir o lider do partido escolhido por eleições e maioritário porque ao fim de três anos lançou o país numa crise gravissima, de forma irresponsável. E criar a partir daí alternativas. Nacionais ou de sentido nacional para além da representatividade político-partidária. Porque se neste momento alguém for deixado de fora da concertação da solução temos aqui campo para a guerra civil. E ela está mais próxima que algumas pessoas imaginam e que nós em Portugal ficcionamos. A gente arrogante e autoritária não está apenas do lado do governo.
O problema de Timor é como a trama das telenovelas brasileiras: a trama é febril, agitada, feita de golpes e contragolpes, a colar ao olho do expectador mas no pano de fundo não se percebe bem quem produz, quem trabalha, quem cria projectos empresariais, quem cria riqueza.
Não me parece que sejam os 25/30% da população que têm emprego garantido na administração pública e nos escritórios da ONG. A menos que o Adam Smith e o David Ricardo se tenham equivocado o Estado não produz riqueza, distribui parte dela que colecta através dos impostos.
O problema é o que há que fazer com os outros 70% da população que não têm trabalho e vivem dos expedientes. Trata-se de um problema de justiça social e distribuição da riqueza, mas também de modelo: qual é o projecto de desenvolvimento da sociedade timorense.
Até aqui não vi explicitado nenhum. Isso é que é pena, porque os doadores internacionais têm o direito de perguntar para onde tem ido a ajuda internacional, como é que ela tem sido aplicada, em que programas?
É que por vezes surge a insinuação que algumas pessoas da elite dirigente timorense têm uma vida de ostentação que não liga - nada - com o país pobre e desprovido que têm. Os exemplos de nepotismo, corrupção e cleptocracia habituámo-nos a ver em África, pretextamente nalguma de língua oficial portuguesa.
Seria dramático era vê-lo repetido, agora, em Timor. Afinal a única descolonização que dizem-nos foi concertada com a população.
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