As famílias das vítimas da queda da ponte de Entre-os-Rios vão apresentar uma queixa-crime contra o Estado e pedem ao anigo ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, que revele «tudo o que sabe» sobre este processo.
O antigo ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, que se demitiu na noite da tragédia, lamentou na quarta-feira, na SIC Notícias, no programa «Quadratura do Ciclo», que «a culpa mais uma vez morra solteira» depois dos seis arguidos levados a julgamento no processo da queda da ponte de Entre-os-Rios terem sido absolvidos. Horácio Moreira, da Associação dos Familiares das Vítimas, desafia agora Jorge Coelho a revelar tudo o que sabe. «Quando disse a primeira frase toda a gente percebeu que saberia alguma coisa. Estes factos parece que em tribunal nunca chegaram a ser esclarecidos por ninguém», afirmou. «Recordo que morreram 59 pessoas, o tribunal chegou à conclusão de que não havia regras técnicas que os engenheiros pudessem seguir, não havia regras escritas, o lapso que se deu em Entre-os-Rios pode acontecer em qualquer outra ponte do país. Será que é isto que os portugueses querem?», prosseguiu. As famílias das vítimas da queda da ponte de Entre-os-Rios pedem ajuda a Jorge Coelho para levar este caso mais uma vez a julgamento.
X--X--X
Uma das ingenuidades que caracterizam a personalidade do português - em termos sociológicos - é a crença que há certas personalidades públicas cuja bondade, simpatia ou o proselitismo os pode ajudar a libertar dos seus fantasmas, culpas e preocupações. É impossível compreender o sebastianismo, e o lastro popular do salazarismo, durante parte significativa da ditadura, sem entender o voluntarismo empático, muitas vezes irracionalizado e, quase sempre, infundamentado do povo português.
O antigo ministro e responsável político do PS é um destes casos. Alguém que veio do aparelho do partido e soube, com enorme, engenho singrar ao lado de todos os dirigentes socialistas pós-Mário Soares, tornando-se "o" homem influente, o verdadeiro Metternicht dos vários governos socialistas. A capacidade de manobrismo do Dr. Coelho é tão lendária quanto a sua frontalidade, ou o seu bonacheirismo a lembrar de certa forma o Dr Soares.
O Dr Coelho é, por isso, incólume à crítica, à censura pública, à imputação de responsabilidades pelos actos políticos que produzem efeitos lesivos dos interesses dos cidadãos. É uma qualidade que lhe é coureácia. Depois, gosta imenso de "jogar" naquele jogo de insinuações encapotadas que descobre o suficiente para se perceber que há "gato", sem se poder provar que o há. E mesmo quando brinca com a sorte dos outrosm, as pessoas não lhe levam a mal. Há gente predestinada, assim, na política portuguesa. Uns poucos, nem uma mão cheia.
Claramente - ao contrário do que imaginam as famílias das vítimas de Entre os Rios - o Dr. Coelho não tem costela de bom samaritano. E quando fala (e parte a loiça, como os jornalistas gostam de o referenciar) fá-lo de forma rigorosa, calculista, premeditada. Diz apenas o que quer dizer, deixa cair o suficiente para se manter à tona e ser referenciado como "oppinion maker". Alguém (como o Dr. Vitorino) que paira sobre a política sem (agora) chafurdar nela. Mantendo as connections, gerindo as relações e as alianças (secretas) mas não se enterrando....no atoleiro.
Neste processo - como aqui disse - resta às famílias apenas um caminho processar o Estado português e fazê-lo nas instâncias internacionais. O Dr Coelho é um good fellow mas pouco mais que isso.